Este é o mesmo veneno que deram a Robert?
- Ofende-me - disse Varys num tom triste, - É verdade que
ninguém gosta de um eunuco. Dê-me o odre - ele bebeu, com
um fio vermelho escorrendo pelo canto da boca gorda. - Não
se compara à safra que me você ofereceu na noite do torneio,
mas não é mais venenoso que a maioria - concluiu, limpando
os lábios. - Aqui está.
Ned experimentou um gole.
- Borras - sentiu-se a ponto de regurgitar o vinho.
- Qualquer homem deve engolir o amargo com o doce. Tanto
os grandes senhores como os eunucos. Sua hora chegou,
senhor.
- As minhas filhas...
- A mais nova escapou de Sor Meryn e fugiu - disse-lhe Varys.
- Não fui capaz de encontrá-la. Nem os Lannister. Uma coisa
boa, essa. Nosso novo rei não a ama. Sua filha mais velha
continua prometida a Joffrey. Cersei a mantém por perto.
Veio a uma audiência há alguns dias suplicar que o senhor
fosse poupado. Uma pena que não pudesse estar lá, ficaria
comovido - inclinou-se para a frente com uma expressão séria.
- Creio que o senhor compreende que é um homem morto,
Lorde Eddard?
- A rainha não me matará - disse Ned. Sentia a cabeça
flutuar; o vinho era forte, e passara-se muito tempo desde que
comera. - Cat... Cat tem o irmão dela...
- O irmão errado - suspirou Varys. - E de qualquer modo, está
perdido. Ela deixou que o Duende lhe fugisse por entre os
dedos. Suponho que esteja morto agora, em algum lugar nas
Montanhas da Lua.
- Se isso é verdade, corte-me a garganta e acabe com isto -
estava tonto do vinho, cansado e desolado.
- Seu sangue é a última coisa que desejo. Ned franziu as
sobrancelhas.
- Quando assassinaram minha guarda, você ficou ao lado da
rainha, observando, sem dizer uma palavra.
- E o faria de novo. Julgo recordar que estava desarmado,
sem armadura e rodeado por espadas dos Lannister - o eunuco
olhou-o de forma curiosa, inclinando a cabeça. - Quando era
um rapazinho, antes de ser cortado, viajei com uma trupe de
pantomimeiros pelas Cidades Livres. Ensinaram-me que cada
homem tem um papel a desempenhar, quer na vida quer na
pantomima. Assim é na corte. O Magistrado do Rei tem de
ser temível, o mestre da moeda deve ser frugal, o Senhor
Comandante da Guarda Real tem de ser valente... e o mestre
dos espiões deve ser dissimulado, obsequioso e sem escrúpulos.
Um informante corajoso seria tão inútil como um cavaleiro
covarde - recuperou o odre e bebeu.
Ned estudou o rosto do eunuco, procurando a verdade sob as
cicatrizes de pantomimeiro e a barba falsa. Bebeu mais um
pouco de vinho. Desta vez desceu mais facilmente.
- É capaz de me libertar deste buraco?
- Seria... Mas vou fazê-lo? Não. Seriam feitas perguntas, e as
respostas levariam até mim. Ned não esperava outra coisa.
- Você é direto.
- Um eunuco não tem honra, e uma aranha não se beneficia
do luxo dos escrúpulos, senhor,
- Ao menos poderia levar uma mensagem minha?
- Dependeria da mensagem. De bom grado lhe fornecerei
papel e tinta. E depois de escrita, levarei a carta, lerei e a
entregarei ou não, conforme o que melhor sirva aos meus fins.
- Seus fins. E que fins são esses, Lorde Varys?
- A paz - respondeu Varys sem hesitação. - Se havia uma alma
em Porto Real verdadeiramente desesperada por manter
Robert Baratheon vivo era eu - suspirou. - Protegi-o de seus
inimigos durante quinze anos, mas não consegui protegê-lo de
seus amigos, Que estranho ataque de loucura o levou a dizer à
rainha que sabia da verdade sobre o nascimento de Joffrey?
- A loucura da misericórdia - admitiu Ned.
- Ah - disse Varys. - Com certeza. E um homem honesto e
honroso, Lorde Eddard. Por vezes me esqueço disso. Conheci
tão poucos ao longo da vida - lançou uma olhadela pela cela.
- Quando vejo o que a honestidade e a honra lhe trouxeram,
compreendo porquê,
Ned Stark encostou a cabeça à úmida parede de pedra e
fechou os olhos. Sentia a perna latejar.
- O vinho do rei... interrogou Lancei?
- Ah, decerto. Cersei deu-lhe os odres e lhe disse que eram da
safra favorita de Robert
- o eunuco encolheu os ombros. - Um caçador vive uma vida
perigosa. Se o javali não tivesse acabado com Robert, teria
sido uma queda do cavalo, a picada de uma víbora da mata,
uma seta perdida... a floresta é o matadouro dos deuses. Não
foi o vinho que matou o rei. Foi a sua misericórdia.
Era o que Ned temia.
- Que os deuses me perdoem.
- Se os deuses existirem - disse Varys -, suponho que o farão.
Em qualquer caso, a rainha não teria esperado muito tempo.
Robert estava se tornando incontrolável, e ela precisava se
ver livre dele para lidar com seus irmãos. Formam uma bela
dupla, o Stannis e o Renly. A manopla de ferro e a luva de
seda - limpou a boca com as costas da mão, - Foi tonto,
senhor. Devia ter escutado Mindinho quando lhe sugeriu
apoiar a sucessão de Joffrey.
- Como... como podia saber disso? Varys sorriu.
- Sei, e é tudo o que precisa saber. Também sei que de manhã
a rainha virá visitá-lo. Lentamente, Ned ergueu os olhos.
- Por quê?
- Cersei o teme, senhor..., mas tem outros inimigos que teme
ainda mais. Seu querido Jaim